30/03/2026
No epicentro de uma tempestade perfeita, desencadeada pela guerra no Irã e seus efeitos sobre o mercado global de petróleo, o setor de distribuição de combustíveis no Brasil vai enfrentar ainda mais dificuldades para atrair investidores no momento em que as maiores companhias do setor, que respondem por 50% do mercado — Raízen, Grupo Ultra e Vibra (ex-BR) — passam por recuperação extrajudicial, mudanças societárias e entraves à expansão.

Em um ambiente de elevada volatilidade com o barril ultrapassando os US$100 somado às limitações na oferta de diesel e à política de preços da Petrobras, especialistas e empresas já alertam para o risco de recrudescimento da sonegação no setor, mesmo após a Operação Carbono Oculto, conduzida pelo Ministério Público, para investigar um esquema de fraudes fiscais e importação irregular de derivados no segmento.

O temor é que o governo e a Agência Nacional do Petróleo (ANP), ao direcionarem seus esforços para a fiscalização dos preços cobrados pelos postos, reduzam o combate à sonegação fiscal, que diminui a competitividade das que operam legalmente.

Entre as principais empresas do setor, a crise atual se soma a problemas de gestão, avalia Pedro Rodrigues, sócio da consultoria CBIE. A Raízen, que tem o direito de uso da marca Shell, protocolou pedido de recuperação extrajudicial recentemente, com dívidas de R$ 65,1 bilhões, após os sócios Shell e Cosan não chegarem a uma solução negociada de aporte de capital.

A Raízen viu sua saúde financeira se agravar após investimentos em usinas de etanol de segunda geração que não obtêm os retornos esperados.

Agora, com o processo de recuperação, a Raízen, com cerca de nove mil postos, vai colocar ativos à venda e tentar buscar novos sócios, diz outra fonte. Recentemente, o presidente da Shell, Cristiano Pinto da Costa, afirmou que a empresa já havia empreendido todos os esforços junto a potenciais investidores, mas sem sucesso. Há duas semanas, foi a vez de o BNDES dizer que vai ajudar a buscar uma solução.

— O segmento vinha sofrendo com o avanço do crime organizado, com a presença do PCC, problemas de adulteração e crimes envolvendo fraudes fiscais. E, além disso, cada empresa enfrenta problemas específicos que acabaram sendo agravados — avalia Rodrigues.

Expansão frustrada

Em outra frente, o Grupo Ultra tentou ampliar a atuação no setor para além da sua marca Ipiranga. Tentou adquirir a Ale Combustíveis, em 2016, para avançar no Nordeste, mas o Cade, que regula a concorrência no país, rejeitou a transação.

O grupo também fez oferta pela Liquigás, uma antiga subsidiária da Petrobras que vendia botijões de gás de cozinha, por meio da Ultragaz, mas o negócio também foi barrado pelo Cade.

Agora, a estratégia da empresa é trazer de volta a marca Texaco, através da parceria com a Chevron. Segundo uma fonte do setor, a Chevron quer avaliar os resultados para decidir se entra como sócia da Ipiranga. Procurada, a Ultrapar informou que não comenta negociações.

A reorganização do setor envolve ainda mudanças na Vibra. A empresa, que comprou a BR Distribuidora da Petrobras durante o governo de Jair Bolsonaro, foi alvo do apetite do empresário José Odvar Lopes, dono da Inpasa, uma das maiores produtoras de etanol de milho. Por meio da gestora Nova Futura, que administra o Fundo Infiniti JL, ele já tem mais de 10% da companhia, o que chegou a gerar questionamentos do Cade.

— A Inpasa tem interesse em usar a cadeia de distribuição da Vibra para ter acesso ao mercado. E esse movimento ocorre em um momento em que a Petrobras não pode entrar no setor de distribuição de combustíveis líquidos por conta do contrato de não competição com a Vibra até meados de 2029 — afirma Marcus D’Elia, sócio da Leggio Consultoria.

Para o advogado Claudio Pinho, professor do curso de pós-graduação em Transição Energética Justa da Mackenzie Rio, um dos desafios do setor envolve ainda a dependência do mercado externo. Ele lembra que as empresas vêm sofrendo com as cotas impostas pela Petrobras por causa do cenário de restrição de diesel:

—Há uma série de distribuidoras de porte médio que estão capitalizadas, adequadamente comprometidas com a ANP e com as normas tributárias, mas não conseguem crescer porque a Petrobras não aumenta suas cotas de vendas . É necessário um programa setorial que premie as distribuidoras de forma a aproveitar o crédito tributário para as atividades de varejo, de modo a absorver uma eventual alta das refinarias.

O histórico recente reforça o sinal de alerta: a francesa TotalEnergies já reduziu sua presença no segmento no país ao vender, em 2024, a rede de postos Zema Petróleo, que havia comprado do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema em 2018, para a SIM Distribuidora.

Em outra frente, a chinesa PetroChina, que detém 30% da Petronac, que atua em 15 estados e no Distrito Federal, ainda não definiu se ampliará seus investimentos no Brasil, algo que era esperado pelo mercado há alguns anos.

D’Elia lembra que a crise no setor ilustra a complexidade do segmento, com o governo fazendo força em direções opostas de olho nos preços. De um lado, o valor dos combustíveis está abaixo da paridade internacional, afetando a compra de diesel pelos importadores, já que a Petrobras só consegue atender a 70% da demanda nacional de diesel.

— E, ao mesmo tempo, há uma pressão do governo sobre as distribuidoras para aumentar o preço do frete, que vai acabar sendo repassado aos consumidores. Há uma preocupação do governo em fiscalizar o preço, e isso pode abrir espaço para os sonegadores. Essa desorganização dificulta a atração de novos investidores para o setor. Quando olhamos os movimentos na Raízen e na Ipiranga, haverá atrasos na busca de novos sócios

Imperfeições

Na sexta-feira, a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Vem Diesel, com foco na fiscalização de postos de combustíveis em 11 estados e no Distrito Federal para investigar crimes contra a ordem tributária, econômica ou contra as relações de consumo. O país conta com cerca de 45 mil postos, dos quais metade estão com Vibra, Ipiranga e Shell.

— O consumidor e a economia pagarão uma conta ainda não precificada. Há uma imperfeição regulatória e tributária na área de distribuição, que se mostrou insuficiente para fomentar a concorrência e o equilíbrio no mercado de distribuição. A geopolítica mundial transforma em aguda uma crise que já era crônica — afirma Pinho, da Mackenzie Rio.

As movimentações do setor

Crise na Raízen e a relação com a Shell

A Raízen, que tem o direito da marca Shell, protocolou pedido de recuperação extrajudicial com dívida de R$ 65,1 bilhões. Com nove mil postos, a empresa vai colocar ativos à venda e buscar sócio.

Dona da Ipiranga quer novo sócio

O Grupo Ultra, dono da Ipiranga, com seis mil postos, busca novo investidor. A companhia fez parceria com a Chevron para trazer a marca Texaco de volta ao país. A depender dos resultados, a petroleira americana pode investir na companhia.

Empresa de etanol avança na Vibra

A Vibra, que comprou a BR Distribuidora da Petrobras, tem cerca de oito mil postos. A empresa foi alvo do apetite do empresário José Odvar Lopes, dono da Inpasa, maior produtora de etanol de milho da América do Sul. Por meio de sua gestora, já detém mais de 10% da companhia.

Autor/Veículo: O Globo

Published On: 30 de março de 2026

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