11/01/2023
A inflação oficial no País, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), fechou 2022 em 5,79%, acima da meta perseguida pelo Banco Central (BC), que era de 3,5% com intervalo de tolerância de até 5%. Éo segundo ano seguido que o índice fica acima da previsão. Em 2021, a inflação chegou a 10,06% – o teto para o índice era 5,25%.
O resultado do ano passado teria sido ainda maior não fosse o corte de impostos sobre combustíveis, energia elétrica e telecomunicações, que seguraram os preços desses itens.
Sem a redução nos tributos da gasolina e da energia elétrica, o IPCA teria sido de 9,56% em 2022, calculou André Almeida, analista do Sistema de Índices de Preços do IBGE.
Os principais “vilões” da inflação do ano passado foram a alimentação, que subiu 11,64%, e os gastos com saúde e cuidados pessoais, com alta de 11,43%. Juntos, os dois grupos responderam por cerca de 66% do IPCA de 2022.
O aumento dos preços dos alimentos no ano passado foi puxado pelo encarecimento principalmente da cebola, leite longa-vida, batata inglesa e frutas, prejudicados por uma redução na área cultivada, questões climáticas e aumento
Índice de dezembro, que ficou acima das previsões mais pessimistas, é sinal de alta persistente de preços
de custos de produção.
A cebola (130,14%) foi o subitem que teve a maior alta entre os 377 que compõem o IPCA. O leite longa-vida aumentou 26,18%; a batata-inglesa, 51,92%; as frutas, 24%; e o pão francês, 18,03%. A alimentação fora do domicílio subiu 7,47%: a refeição teve aumento de 5,86%, e o lanche encareceu 10,67%.
Já a elevação nas despesas com saúde foi a mais aguda desde 1996. A alta foi influenciada pelos aumentos de produtos de higiene pessoal (16,69%), em especial os perfumes (22,61%) e os produtos para cabelo (14,97%), e pelos reajustes autorizados pelo governo para produtos farmacêuticos (13,52%) e planos de saúde (6,90%).
CENÁRIO. Em dezembro, o IPCA foi de 0,62% – ante 0,41% em novembro –, acima das previsões mais pessimistas de analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que estimaram um avanço entre 0,36% e 0,61%, com mediana positiva de 0,45%. Em dezembro, os itens de maior pressão no IPCA foram higiene pessoal (0,14 ponto porcentual) e plano de saúde (0,04 p.p.). “A mensagem que o IPCA de dezembro deixa para 2023 é de que a inflação não começa o ano bem”, afirmou o economista Luca Mercadante, da gestora de recursos Rio Bravo Investimentos.
O índice de difusão, que mostra o porcentual de itens com aumentos de preços, passou de 59% em novembro para 69% em dezembro, o maior desde maio de 2022. Para este ano, a meta da inflação é de 3,25%, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual. •
Depois de registrar expansão nos últimos dois anos, o consumo das famílias deve desacelerar em 2023. Entre os economistas, há quem não descarte uma queda. Se confirmada, seria o primeiro recuo desde 2016, quando o País enfrentou uma dura recessão econômica – excetuando 2020, quando o desempenho econômico global foi alterado pela pandemia.
O Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (FGV-IBRE), calcula que o consumo vai diminuir 0,8% neste ano, após avançar 4,1% em 2022. O Santander, um pouco mais otimista, projeta alta de 1%. O economista do banco Lucas Maynard, porém, afirma que esse desempenho não significa “um grande dinamismo”. “Boa parte desse número decorre do carrego estatístico (efeito matemático, uma espécie de impulso deixado de um trimestre para o seguinte). É como se o crescimento fosse zero do quarto trimestre de 2022 até o quarto trimestre de 2023. Isso já resultaria em um crescimento de 1% para 2023. É gordura deixada de um ano para outro.”
A piora do orçamento das famílias tem como pano de fundo o elevado patamar da taxa de juros, atualmente em 13,75% ao ano, a inflação ainda alta – o IPCA fechou 2022 em 5,79% –, sobretudo para os mais pobres, a inadimplência também elevada e o fim dos estímulos fiscais. No início de 2022, o governo Jair Bolsonaro adotou uma série de medidas para estimular a economia, como a antecipação de 13.º salário de aposentados, a liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e a ampliação do Auxílio Brasil – hoje Bolsa Família – de R$ 400 para R$ 600.
“Será um contexto em que as transferências de renda devem crescer menos, acabou o 13.º salário para aposentados e pensionistas e a liberação de FGTS, ou seja, todo esse estímulo fiscal que ajudou o consumo até aqui. E o mercado de trabalho dá sinais de desaquecimento”, diz Thiago Xavier, economista da consultoria Tendências.
A economista Marina Garrido, do Ibre, destaca que a inadimplência deve continuar subindo até meados deste ano. De acordo com pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 30,3% das famílias brasileiras tinham alguma dívida atrasada em novembro. Dos consumidores com renda mensal de até dez salários mínimos, 34,1% atrasaram dívidas, a maior proporção da série, iniciada em 2010.
“Isso é muito preocupante. Antes, por exemplo, todo mundo conseguia cartão de crédito. Agora, os bancos avaliam mais se vão ou não dar cartão para alguém. Aí, sem cartão, a pessoa consome menos”, diz Marina.
DÍVIDAS. Professora da rede pública de Guarulhos, Yve de Oliveira é um retrato desse cenário. Endividada, vai cortar compras neste ano. Até o ano passado, ela morava com os pais, mas precisou se mudar e comprar móveis para o apartamento que alugou. Yve já tinha algumas dívidas com bancos, mas, com a mudança e passando a pagar aluguel, a situação se deteriorou.
“Na ignorância financeira, sempre que não tinha dinheiro, pegava um empréstimo. Aí, quando não conseguia pagar uma parcela, o banco oferecia um novo empréstimo. Virou uma bola de neve e, no ano passado, virou um tsunami”, diz.
Yve conta que, hoje, 70% do seu salário paga dívidas. “No mês passado, sobraram R$ 67 para me divertir. Agora, não tenho ambição de comprar nada.” •Autor/Veículo: O Estado de S.Paulo