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13/05/2022

Fonte: O Tempo

A proposta de desestatização da Petrobras, colocada em debate pelo novo Ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida, divide opiniões entre especialistas. No mercado, alguns atores, inclusive, não acreditam que o projeto de privatização da estatal seja concretizado até o final do atual mandato de Jair Bolsonaro (PL).

O pedido de estudos para concessão à iniciativa privada foi entregue por Sachsida ao Ministério da Economia nesta quinta-feira (12), um dia após a posse do novo ministro de Minas e Energia, que substitui o almirante Bento Albuquerque no comando da área energética do governo.

Junto ao ministro Paulo Guedes, Adolfo defende também a privatização da PPSA (Pré-Sal Petróleo SA), responsável por gerir a fatia do governo na produção de petróleo em campos do pré-sal. Nesta quinta-feira, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), afirmou que a privatização não está no radar, e cobrou contribuição da estatal para reduzir os preços.

Para o professor de Economia do Ibmec Felipe Leroy a privatização pode corrigir falhas de gestão na estatal, mas desde que a gestão privada seja acompanhada por uma agência reguladora.

“As experiências de privatização foram bem sucedidas. Telefonia ampliou e deu certo. Mas acho que se o governo mantiver participação, dá mais segurança para os agentes econômicos. Se não for possível, pensar em agências para coibir práticas lesivas ao consumidor final”, analisa.

Leroy alerta que a privatização sem nenhuma participação da União pode resultar em um problema como já observado com a Refinaria Landulpho Alves, em Camaçari, na Bahia, onde a gasolina é vendida a um preço que supera em 6% os valores praticados pela estatal. “O problema de ter um monopólio concentrado em cima da iniciativa privada, com alto grau de dependência, pode ter uma cobrança de preço muito acima do normal”, alerta.

O docente ainda diz que a empresa deve aprimorar os detalhamentos dos demonstrativos contábeis para tentar ser “o mais transparente possível”. “Isso gera até incômodo para quem vai investir. É um processo de diligência mesmo”, sugere. Outra opção, segundo o economista, é um plano nacional para diversificação da matriz produtiva com a aposta em veículos híbridos reduzindo a dependência do petróleo.

“Já tivemos uma economia parada por apagão. A gente precisa rever, porque não houve nenhum tipo de investimento para diversificar a matriz produtiva. Hoje estamos reféns de uma matriz concentrada em derivados de petróleo. É uma falha de investimento mesmo”, aponta.

O doutorando em Planejamento Energético pela Universidade Federal do Rio de Janeiro Otávio Grassi vê a privatização de outra maneira. Para ele, o exemplo da refinaria de Camaçari serve de alerta para que o processo seja conduzido com calma. “A lógica da empresa privada é diferente de uma estatal ou empresa de economia mista. A empresa privada quer ter o maior ganho em menor prazo”, cita.

Ele ainda lembra da dependência energética e da economia brasileira sobre o petróleo. “O setor de energia é diferente de outros setores. Energia é algo que todo mundo depende. A gente vê os efeitos da greve dos caminhoneiros de 2018”, complementa. Para GrassI, se bem regulado, o processo pode trazer benefícios, mas há outros caminhos.

“Melhorar a governança da Petrobras é uma outra forma. Existe uma grande desconfiança da população com a corrupção. Em vez de vender o ativo, algo mais interessante seria tornar a empresa mais transparente, diminuindo os casos de corrupção”, finaliza.

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