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19/05/2022

A retomada da economia após dois anos de pandemia de covid-19 e a invasão da Ucrânia pela Rússia trouxeram o petróleo de volta para o centro das preocupações mundiais. Desta vez, não pelo mal que faz ao clima do planeta (o que fez petroleiras reduzirem sua produção e investirem na transição energética), mas por sua escassez. A falta do produto elevou de forma severa os preços no mercado e mostrou que a era do petróleo pode durar muito mais do que previam os ambientalistas, que decretaram o seu fim nos próximos 30 anos.

Com a alta dos preços no mercado internacional, a commodity se tornou novamente atraente. A prova disso é a volta muito intensa dos leilões de petróleo em vários países, como revela estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A estimativa é de que sejam realizados 15 leilões de áreas de exploração de petróleo e gás ao longo deste ano, sendo cinco pendentes de 2021 e 10 novas licitações. No ano passado, foram efetivados apenas seis, sendo dois no Brasil.

“Projeta-se crescimento da aprovação final de projetos greenfield (novos) neste ano e em 2023, e o interesse renovado em áreas de exploração com a recuperação dos preços do petróleo incentivando a realização de novas rodadas de licitação no mundo”, diz o estudo.

Segundo a Rystad Energy, maior consultoria de energia da Noruega, haverá neste ano um aumento de 7% no investimento global em exploração e produção de petróleo, ultrapassando os US$ 300 bilhões. No Brasil, o Ministério de Minas e Energia estima que a produção aumente em 300 mil barris por dia no fim de 2022.

Na avaliação do presidente da Enauta, Décio Oddone, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), havia um cenário muito ruim para a indústria do petróleo nos últimos anos por causa da transição energética, com as petroleiras mudando o portfólio, principalmente as europeias, e reduzindo investimentos em exploração e produção.

“Houve um choque de realidade. A transição energética estava sendo tratada de uma maneira muito idealista, parecia que seria feita de maneira mais rápida, reduzindo a demanda de petróleo e gás, o que não aconteceu. O que vemos nos últimos meses é que não vai ser assim. Estamos vendo um refluxo de interesse por petróleo e gás”, disse.

Segundo o levantamento da EPE, em razão de atrasos provocados pela segunda onda da covid-19, muitos leilões previstos para 2021 terão sua conclusão em 2022, casos de Angola, Noruega, Egito e Malásia. Em alguns, até mesmo leilões programados para 2020 vão acontecer este ano, como no Líbano.

Em 2021, o Canadá realizou duas rodadas de licitação que não tiveram interessados e programa uma próxima para 2023. Já a Índia, país que importa 85% do petróleo que refina, segue realizando leilões regulares com um cronograma bem definido, visando aumentar sua produção doméstica e reduzir sua dependência.

Entre os leilões previstos para 2022, destacam-se as rodadas de concessão na Indonésia, na Malásia, em Angola e nos Estados Unidos, regiões de comprovado potencial offshore (marítimo), que atraem interesse de muitas petroleiras. Embora não haja previsão de leilões neste ano, Noruega e Guiana são regiões que receberão fortes investimentos no setor de exploração e produção.

Caso brasileiro

No Brasil, os tradicionais leilões, que eram realizados desde 1999, foram substituídos pela Oferta Permanente, um banco de dados onde os investidores escolhem as áreas que querem explorar e concorrem por elas. Em abril, o terceiro ciclo da Oferta Permanente foi considerado um sucesso, com a participação de gigantes como Shell e TotalEnergies, petroleiras que vêm diversificando o portfólio para a energia limpa, e de cerca de uma dezena de empresas menores com grande apetite para crescer. O leilão vendeu 59 blocos para exploração e produção, ante 17 da licitação anterior.

O aquecimento do mercado levou o presidente da ANP, Rodolfo Saboia, a anunciar mais uma rodada da Oferta Permanente no segundo semestre, desta vez com 11 blocos da cobiçada região do pré-sal, sob o regime de partilha, sistema em que o governo brasileiro se torna sócio dos investidores.

Em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, o novo presidente da Petrobras, José Mauro Coelho, também avaliou que o petróleo não está com os seus dias contados. “Continuo acreditando que ainda por muito tempo vamos continuar precisando do petróleo na matriz energética mundial. Até porque petróleo não é só combustível, petróleo tem uma utilização vastíssima em toda a economia mundial. Ficou muito claro no conflito entre Rússia e Ucrânia que a transição energética deve ser feita com segurança energética”, explicou.

Segurança energética

Já para o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie) Adriano Pires, é natural ver o retorno dos leilões de petróleo em um momento de preços altos e demanda apertada, principalmente após a invasão da Ucrânia pela Rússia, que alertou o mundo para o risco de desabastecimento de combustíveis. O diesel, especificamente, teve sua oferta global fortemente reduzida pela disputa dos mercados.

De acordo com Pires, a percepção de que o petróleo traz segurança energética deve fazer com que a “demonização” do combustível fóssil seja desacelerada. “Não que a transição energética vá parar, vai continuar, mas acho que olhando um pouco além da simples troca de combustível fóssil pelo renovável, olhando questões como a eficiência energética, que é a melhor forma de reduzir a demanda sem comprometer o crescimento econômico”, afirmou.

Para a ex-diretora-geral da ANP Magda Chambriard, a volta dos leilões de petróleo é um movimento que acompanha a demanda atual pela commodity e não vai desaparecer, como alguns agentes da indústria parecem acreditar. “Todas as previsões têm algo em comum: todas elas estão erradas. A demanda por petróleo continua subindo, em um ritmo mais lento, e deve subir até 2050. Pelo menos 83% da energia consumida no mundo vem de combustíveis fósseis, seja o petróleo, o gás ou o carvão”, disse, concluindo que, desta maneira, os leilões de petróleo pelo mundo ainda terão vida longa.

Especulação

Acompanhando a demanda mundial, mas ainda longe de conseguir suprir parte do que as nações precisam hoje, a produção de petróleo dos EUA aumentou 2%, para 11,8 milhões de barris por dia, desde dezembro, e permanece bem abaixo do recorde de 13,1 milhões de barris por dia estabelecido em março de 2020, pouco antes de a pandemia paralisar a economia global.

O governo prevê que a produção americana da commodity terá uma média de 12 milhões de barris por dia neste ano e aumentará cerca de outro milhão em 2023. Esse aumento ficaria bem abaixo dos quase 4 milhões de barris de petróleo que a Europa importa da Rússia todos os dias.

A maior razão pela qual a produção de petróleo não aumenta é que as empresas de energia dos EUA e seus investidores de Wall Street não têm tanta certeza de que os preços do petróleo permanecerão altos o suficiente para obter lucro com a perfuração de novos poços.

Executivos de 141 empresas petrolíferas pesquisadas pelo Federal Reserve Bank de Dallas em meados de março ofereceram várias razões para que não estivessem produzindo mais petróleo. Eles disseram que estavam com falta de trabalhadores e areia, que é usada para escavar campos de xisto para extrair petróleo da rocha. No entanto, a razão mais relevante — dita por 60% dos entrevistados — foi a de que os investidores não querem que as empresas produzam muito mais petróleo, temendo que isso desvalorize o produto no mercado internacional.

“Você tinha essa indústria que batia no peito se apresentando como a reencarnação do espírito inovador americano, mas, agora que eles poderiam estar entrando em ação para contribuir para trazer o petróleo tão necessário para o mundo, eles estão sendo estranhamente cautelosos”, disse Jim Krane, especialista em energia da Rice University.

Movimento mundial

As companhias petrolíferas dos EUA não estão sozinhas. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e outros membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo também se recusaram a bombear muito mais petróleo desde que a guerra da Rússia na Ucrânia começou no final de fevereiro.

Essa relutância profunda contrasta com o comportamento típico da indústria petrolífera quando os preços subiram. Nas últimas duas décadas, as empresas petrolíferas quase sempre responderam aos preços mais altos produzindo mais. Um frenesi acompanhou o aumento dos preços no início dos anos 2000 e novamente na recuperação que se seguiu à crise financeira de 2008. Mas todo boom de preços foi seguido por um grande crash — três apenas nos últimos 14 anos. Com tal cenário, é provável que os preços continuem altos e os governos tenham de lutar contra uma inflação persistente. Autor/Veículo: O Estado de S.Paulo

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