Sindicombustiveis-al

25/11/2021

Fonte: Diário do Comércio
Hidrogênio verde é obtido através de um processo eletroquímico que separa os átomos da água | Crédito: Pixabay

Dentre as oportunidades oriundas do processo de descarbonização da economia está a possibilidade de o Brasil liderar o processo de transformação energética mundo afora. Em meados de 2022, já deverá ser possível ver os primeiros projetos de hidrogênio verde, considerado o combustível do futuro, despontando no País. Já uma cadeia produtiva e robusta poderá nascer a partir de 2025.

Estimativas dão conta de que até 2030 serão realizados em todo o mundo investimentos da ordem de 140 bilhões de euros em empreendimentos limpos. No Brasil, o Ceará é o estado onde as negociações para atrair esse tipo de investimento estão mais avançadas e cerca de R$ 10 bilhões já estão no radar. Mas Minas Gerais não fica atrás e também conta com alguns projetos em andamento.

Em agosto, o governo mineiro e a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) lançaram o Programa Minas do Hidrogênio, uma iniciativa cujo objetivo é, justamente, estimular e estruturar a produção do hidrogênio verde no Estado. De lá para cá, diversas oportunidades começaram a surgir.

“Muitas delas são para testes já almejando o potencial de Minas Gerais como usuário do hidrogênio, uma vez que setores-base da nossa economia serão grandes consumidores, como mineradoras, cimenteiras e siderúrgicas, por exemplo. Há também investidores interessados em produzir o hidrogênio em suas próprias plantas fotovoltaicas para destinar à exportação. Ou seja, teríamos uma produção para atender a demanda local e também a exterior”, explica o membro da Regional Minas Gerais da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Marcelo Luiz Veneroso. A entidade criou, há alguns meses, o Conselho de Hidrogênio, e Veneroso é diretor-coordenador.
O que é o hidrogênio verde

Também conhecido como hidrogênio renovável, o hidrogênio verde é produzido através da eletrólise da água, recorrendo a um processo eletroquímico que separa o átomo do hidrogênio do átomo do oxigênio. E, há alguns anos, começou a ser produzido a partir das energias renováveis solar, eólica e hídrica, de maneira que a eletricidade produzida não tenha emissões associadas à sua produção. Assim, é 100% sustentável, mas também mais caro que o hidrogênio tradicional.

O hidrogênio verde pode ser utilizado como matéria-prima na produção de fertilizantes e para substituir o carvão mineral que abastece as usinas siderúrgicas, por exemplo. No futuro, ele poderá ser o combustível de caminhões pesados, navios e aviões.

Visando a conhecer mais sobre a alternativa e propor soluções para seu desenvolvimento, no mês passado, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizou um debate sobre o tema e a Comissão Extraordinária das Energias Renováveis e dos Recursos Hídricos lançou uma Carta das Minas e Energias Gerais, com os pilares e objetivos para a produção do hidrogênio verde e sua introdução na matriz energética nacional, recomendações aos poderes públicos e vantagens competitivas do Estado.

“Muita coisa já está acontecendo, mas ainda há muito o que se fazer. As intenções e os projetos são muitos. Precisamos viabilizá-los. E, para isso, precisamos de regulamentação, precisamos de visibilidade e ambiente favorável para torná-los todos economicamente atrativos”, reforça Veneroso.
João Paulo Braga afirma que o cenário para o combustível é bastante promissor no Estado | Crédito: Divulgação/Indi
Potencial para exportar hidrogênio verde

O diretor-presidente da Agência de Promoção de Investimento e Comércio Exterior do Estado (Indi), João Paulo Braga, destaca que esta é uma pauta que o governo mineiro acredita e valoriza muito e que o Estado possui grande potencial tanto como gerador quanto como consumidor.

“Já temos energia solar, eólica e hidráulica para produzir o hidrogênio verde e também temos os maiores parques industriais intensivos em energia, como o siderúrgico e o cimenteiro. Ou seja, o cenário é bastante promissor”, avalia.

E por se tratar de uma nova tecnologia ainda em desenvolvimento, Minas Gerais tem buscado fazer parcerias com quem já entende do assunto ou pode financiar projetos por aqui. Neste sentido, conforme Braga, já houve conversas com o Instituto Fraunhofer Gesellschaft, da Alemanha (que tem desenvolvido sua expertise em outros países), com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) (que sinalizou a possibilidade de atuar como agente financiador de projetos para esse tipo de energia) e com empreendedores que desejam combinar a geração eólica com a produção do hidrogênio verde.

“Minas ainda não tem projetos concretos, mas tem um conjunto de atores interessados no tema e grande potencial. O governo quer construir isso conjuntamente com a Fiemg e, para isso, se articula para traçar um plano que defina como essa indústria pode se prosperar no Estado, assim como fez lá atrás quando lançou o Mapa do Sol e que serviu para direcionar e atrair importantes investimentos em energia solar. Quais as regiões mais apropriadas, quem pode financiar os projetos, qual tipo de tecnologia poderá ser utilizada são algumas das perguntas que poderão nortear a produção de hidrogênio verde no Estado”, diz.

Já o vice-presidente da Câmara da Indústria de Energia, Petróleo e Gás da Fiemg, Márcio Danilo Costa, reitera que Minas Gerais deseja assumir um papel relevante na produção nacional do hidrogênio verde e que a intenção do Programa Minas do Hidrogênio é que o Estado inicie uma trajetória ampla de investimentos para fortalecer a cadeia produtiva do elemento, desde a produção da molécula, equipamentos e desenvolvimentos tecnológicos.

Ele argumenta que o hidrogênio verde é a principal alternativa para a descarbonização, com relação à substituição aos combustíveis fósseis, agindo como um integrador entre as fontes de energia e seu uso final, proporcionando segurança energética. E que, neste ponto, o hidrogênio apresenta uma grande vantagem para o sistema elétrico nacional, possibilitando o balanceamento da demanda e oferta de geração de fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica e reduzindo o uso das térmicas de fontes não renováveis para a estabilidade do sistema.

“Minas Gerais, assim como o Brasil, pode ser grande gerador e exportador do hidrogênio verde. Hoje temos uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, utilizando biogás, biomassa, eólica, solar e hidráulica. A participação de fontes renováveis na geração elétrica mineira apresenta grande destaque, sendo que atualmente 93% da geração do Estado é de fonte renovável, o que coloca Minas Gerais como um grande possível produtor desta alternativa de energia”, afirma.

Costa acredita que os investimentos em renováveis como eólica, solar, serão mantidos, até porque é por meio do uso dessas fontes como insumo, que o hidrogênio verde é fabricado. A expectativa, porém, é que supere as fontes fósseis como o petróleo, principalmente em automóveis, ônibus, caminhões pesados, navios e aviões.

Por fim, o vice-presidente da Câmara da Indústria de Energia, Petróleo e Gás da Fiemg lembra que embora atualmente o principal entrave para o desenvolvimento da cadeia do hidrogênio verde seja a competitividade de preços comparada às outras fontes alternativas de energia, o cenário tende a mudar.

“Com anúncio por diversos países e empresas de vários projetos de hidrogênio em giga-escala, os custos de produção de hidrogênio seguem uma tendência de queda, impulsionado principalmente pela queda acelerada nos custos das energias renováveis, além disso, o aumento na demanda por componentes para a cadeia de produção e distribuição de hidrogênio nos próximos anos proporcionará uma redução dos custos”, aposta.

Categories: noticias