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Valor Econômico

Marli Olmos

Trinta anos atrás, cinco membros de uma associação de classe firmaram um pacto para se perpetuar no poder. O grupo se revezaria na presidência da entidade, independentemente da entrada de novos sócios. Esse acordo de cavalheiros jamais foi questionado sequer pelos novos sócios, que apareceram nos últimos 15 anos. Mas o modelo de circularidade no poder entre cinco num clube que hoje reúne 28 associados esgotou-se. A última gestão baseada na fórmula começa na próxima segunda-feira e termina em abril de 2016.

Os cavalheiros que se reuniram para fechar o acordo de supremacia representavam Volkswagen, Ford, General Motors, Mercedes-Benz e Fiat, que se estabeleceu no país nos anos 70, duas décadas depois das outras quatro. O círculo fechou-se nessas empresas e toda a atividade da entidade que as representa, a Associação Nacional dos Fabricante de Veículos Automotores (Anfavea), voltou-se para o atendimento dos interesses específicos desse grupo.

O acordo não está escrito em estatuto. Mas foi rigorosamente cumprido. Em gestões médias de três anos, o comando ficou duas vezes com a Mercedes-Benz, duas com a Fiat, três com a Ford, três com GM, quatro com Volkswagen e uma vez com Autolatina, a antiga aliança entre Ford e Volks.

Chegou, de novo, a vez da GM. O diretor de assuntos institucionais da montadora americana, Luiz Moan Yabiku Júnior, tomará posse na noite de segunda-feira, num evento de gala no clube Monte Líbano, local onde tradicionalmente os dirigentes da Anfavea repassam o bastão do comando da entidade.

Já se sabia, há três anos, quando Cledorvino Belini, da Fiat, assumiu o mesmo posto, que Luiz Moan, como é conhecido, o sucederia. Nenhuma das empresas que se instalaram no país durante o ciclo de investimentos do setor na década de 90 ousou questionar a regra. Todas, aliás, votaram em eleições da entidade, seguindo o “script”.

Não havia forças, entre os fabricantes que chegaram depois de acertado o acordo do rodízio, para inscrever eventual chapa de oposição. Mas o motivo maior desse conformismo com as regras do jogo se sustentou, até agora, no sucesso do grupo dos cinco nas conquistas dos generosos benefícios governamentais, que agradavam a todo o setor.

Dessa forma, as empresas novatas pegaram muitas caronas em conquistas cavadas pelas grandes, que até hoje dominam o mercado brasileiro.

Ao longo dos 56 anos de história da Anfavea quase não houve briga de interesses. O episódio mais marcante foi um racha, no início dos anos 2000, com Fiat e Volkswagen de um lado e General Motors de outro, em torno do IPI para carros populares. Volks e Fiat saíram vitoriosas na briga para convencer o governo federal a manter um tributo menor para carros com motor 1.0, uma de suas especialidades até hoje.

Embora com a vaga garantida pelo sistema de revezamento, a candidatura de Moan recebeu forte apoio. A maioria dos associados está otimista em relação à sua gestão. Mas, nos bastidores, as montadoras que até agora não participaram do revezamento no poder se preparam para interferir e colocar seus interesses de forma mais evidente na próxima eleição. Silenciosamente, as cinco que criaram o modelo do rodízio também sabem que o acordo de cavalheiros chegou ao fim.

Pela ordem, a próxima a assumir a presidência da associação, em 2016, seria a Volkswagen. Não se pode afirmar que a própria Volks perderá a vez ou que alguma das outras grandes não voltará ao poder. Mas é igualmente provável que, ao final da gestão da diretoria que agora toma posse, um fabricante japonês, francês ou até mesmo um coreano assuma pela primeira vez o comando da entidade que fala em nome de um setor que responde por 22% do PIB industrial e 5% do PIB nacional.

O quadro, hoje, expõe um universo de interesses bem mais amplo. A briga por benefícios governamentais ganha novos contornos, como o interesse de empresas como Nissan, Renault e Toyota na redução de impostos para carros híbridos e elétricos. Um tema como esse não entrará nas prioridades se a agenda continuar nas mãos do grupo dos cinco.

Independentemente de eventuais conflitos no futuro, Moan começa o mandato cercado de aliados. A seu favor pesa experiência forte o suficiente para transformá-lo em presidente da entidade antes da posse. Ele é técnico na essência, mas também sabe ser político, tem domínio para negociar e habilidade para tratar com os governos, o que agrada qualquer empresa do setor.

Para o público em geral, Moan pode até não ser tão famoso quanto o antecessor, Belini, presidente da Fiat. Mas circula como poucos por gabinetes de governos federal, estadual e municipal. Nos últimos anos, tomou a frente nas negociações para obter incentivos fiscais em projetos de modernização e expansão nas fábricas da GM de São Caetano do Sul (SP), Gravataí (RS) e a construção de uma unidade de motores em Joinville (SC).

O executivo é também o principal negociador da GM em conflitos trabalhistas como o de São José dos Campos (SP), onde recentes demissões em massa indicaram o esvaziamento da fábrica como resposta da empresa à resistência do sindicato, comandado pelo PSTU. Segundo contam, Moan nem aparece se as negociações salariais seguem um curso amigável. Mas basta surgir um conflito para ele entrar em ação.

O comando da Anfavea está longe de ser uma grande estreia nesse caso. Moan já se acostumou a representar o setor nas negociações com o governo federal, inclusive na recente elaboração do regime automotivo, o Inovar-Auto. Como diz um dirigente sindical, é fácil perceber quando um decreto “tem o dedo de Moan”.

Aos 57 anos e mais de 30 de experiência no setor automotivo, uma das grandes virtudes desse economista é a habilidade com números. Durante anos ele foi o braço direito de José Carlos Pinheiro Neto, o vice-presidente da GM que, até se aposentar, trabalhou intensamente em lobbies da indústria automobilística por redução de impostos.

Em público, o novo presidente da Anfavea mantém a discrição típica da descendência japonesa. Mas pessoas que o acompanham garantem que ele também é um “grande piadista”, desde que, ressalvam, esteja num “petit comité”.

O sistema de revezamento na Anfavea pode estar com os dias contados. Mas as montadoras que pretendem reivindicar sua vez no comando da entidade têm pela frente o desafio de garantir que seus representantes fiquem tão afinados quanto os que até agora protegeram o grupo dos cinco.

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