Sindicombustiveis-al
 
Resenha Eletrônica do Ministério da Fazenda
 
Marcelo Faria percorre 150 quilômetros por dia. E uma fase crucial de seu trabalho, tenta me explicar, enquanto descreve as diferenças entre as variedades de plantas em um imenso canavial de fronteiras inalcançáveis pelos olhos.
 
Para um urbanoide, é impossível enxergar qualquer peculiaridade naquele mar de folhas retorcidas que tentam se proteger do sol abrasador. Faria, ao contrário, as vê como bebês, ou crianças, com todas as suas potencialidades e deficiências. Seu trabalho é extrair o máximo década caule quando a colheita começar, daqui a um mês, no coraçã;o de Mato Grosso do Sul. "A safra vai ser boa", afirma, ao lado de um pé de cana de 2,5 metros de altura.
 
Aos 30 anos, Faria é um trabalhador experiente. Começou a freq&uumlentar canaviais no interior de Sã;o Paulo aos 12 anos, em companhia do pai. Nessas quase duas décadas, o gerente agrícola assistiu a uma mudança sem precedentes no setor. Na nova fronteira da cana no Centro-Oeste, nã;o há espaço para os migrantes temporários, os boias-frias. Com eles desapareceram as condições desumanas de trabalho e a exploraçã;o ao estilo escravocrata. Os facões imprecisos e as queimadas criminosas foram substituídos por colheitadeiras guiadas por satélite. Até novembro, as máquinas ficarã;o ligadas 24 horas por dia, sete dias da semana. Um pouco mais de 500 trabalhadores bastam para entregar &agrave usina 4,6 milhões de toneladas de cana que serã;o convertidos em 350 milhões de litros de etanol e 300 mil megawatts/hora de energia elétrica, o suficiente para abastecer 100 mil residências.
 
A semelhança do canavial, a parte industrial é totalmente automatizada. De uma sala de controle que lembra um centro espacial, funcionários fiscalizam por câ;meras e computadores cada passo da produçã;o, da moagem da cana &agrave mistura das leveduras. Sã;o 200, bem treinados, alguns formados em faculdades, a maioria habitante da regiã;o. Desde a chegada do empreendimento, em 2009, a populaçã;o de Nova Alvorada do Sul cresceu em um terço. A pequena cidade, que, apesar do nome, fica a oeste do estado, ganhou um novo hotel, restaurantes, agências bancárias, lojas de varejo. E o município de maior crescimento de Mato Grosso do Sul no período.
 
A usina é uma das nove unidades que a Odebrecht Agroindustrial, antiga ETH, construiu ou incorporou nos últimos cinco anos. Estimulada pelas perspectivas de expansã;o do consumo de etanol no Brasil e no mundo, a construtora uniu-se a uma nova leva de investidores, formada por grandes grupos nacionais e estrangeiros, em busca do nirvana do combustível sustentável. Entre 2007 e 2010, quando Lula se tornou embaixador mundial da bioenergia e vendeu a soluçã;o brasileira do etanol de cana, 74 novas usinas foram inauguradas no País. A Odebrecht partiu do zero (a ETH surgiu em 2007) e consolidou um imponente parque industrial em tempo recorde. "Nossa aposta é de longo prazo. O etanol é limpo, renovável, brasileiro e caminha para se tornar uma commodity global. E o Brasil reúne as condições para ser líder mundial", afirma Luiz de Mendonça, presidente da empresa.
 
Em três ou quatro safras, quando prevê operar em plena capacidade, as unidades da Odebrecht Agroindustrial vã;o processar 40 milhões de toneladas de cana, o dobro da produçã;o atual. Existe, portanto, um razoável caminho até a maturaçã;o dos investimentos. A questã;o passou a ser outra: E depois? "Teremos de analisar o mercado com atençã;o", avalia Mendonça. "Uma nova usina custa em média 1 bilhã;o de reais. E a verdade é que vivemos muitas incertezas no momento."
 
Uma série de fatores afetou de forma brusca o humor dos investidores, até dos mais equipados e capitalizados. A euforia de meados da década passada deu lugar &agrave apreensã;o e ao desâ;nimo. Em 2011 e 2012, o número de usinas fechadas superou em larga medida &agravequele das novas unidades, sinal da completa inversã;o das expectativas (gráfico ao lado). A produçã;o total de cana vai crescer nos próximos anos, após um vale de 2009 a 2011, mas, em conseq&uumlência do clima ruim, a expansã;o ficará abaixo do projetado. Isso significa restrições de oferta no futuro próximo. Nem todos têm o orçamento, o planejamento e o horizonte da Odebrecht. Segundo um estudo recente do Banco Itaú/BBA, grupos sucroalcooleiros responsáveis por 18% da capacidade de moagem do Centro-Sul estã;o em péssimas condições financeiras, sem capacidade para modernizar as usinas e recuperar a produtividade dos canaviais. Em outras palavras, a falência bate &agrave porta e as empresas sã;o no momento um jantar fácil diante dos tubarões do setor.
 
Uma ínfima parcela dos problemas atuais é culpa do clima: um ano de forte chuva e outro de seca extrema reduziram a produtividade da lavoura e explicam a queda da colheita ao menor nível desde 2008. A responsabilidade da natureza encerra-se neste ponto. O setor vai mal por causa de um fator terreno e mais simples de ser resolvido: as intervenções do governo federal, desastrosas, que desarranjaram a cadeia produtiva.
 
O maior de todos os equívocos é a atual política dc preços dos combustíveis. Para segurar a inflaçã;o, Brasília adiou além do devido e do recomendável o reajuste da gasolina, balizador do consumo do álcool. Pelo fato de o motor a álcool ter um desempenho pior, os especialistas estimam que o uso do etanol só compensa se o preço nos postos nã;o ultrapassar 70% daquele da ga-solina. Essa diferença ficou achatada por um bom período do governo Lula e nestes dois anos da administraçã;o de Dilma Rousseff. Em janeiro deste ano, diante dos apelos da Petrobras (e de resultados financeiros preocupantes da estatal), a equipe econômica autorizou um reajuste nas refinarias de 6,6%. Uma correçã;o bem-vinda, mas insuficiente: a defasagem continua de ao menos 20% quando se avalia o preço do barril do petróleo no mercado internacional. Para compensar a empresa pública, o governo optou por zerar a Cide, imposto sobre a venda de combustíveis fósseis. Foi um clássico caso no qual a emenda saiu pior que o soneto.
 
Ao eliminar a cobrança, alimentou-se a seguinte cadeia de distorções:
 
1. O imposto sobre a gasolina, produzida a partir do petróleo, matéria-prima escassa, antiga e poluente, está quase no mesmo nível daquele cobrado do etanol, limpo e renovável. E uma estranha opçã;o pelo passado em detrimento do futuro.
 
2. A reduçã;o da Cide nã;o foi suficiente para compensar as perdas da Petrobras com a falta de reajuste da gasolina. Apenas mascarou uma distorçã;o econômica. O fato é que a mais importante empresa brasileira, convocada a comandar um dos mais extraordinários investimentos em curso no planeta, a exploraçã;o do petróleo na camada do pré-sal, nã;o tem sido remunerada da forma adequada.
 
3. Com o preço deprimido da gasolina, encher o tanque com álcool deixou de ser vantajoso. O consumo pela frota de veículos flex, cujo motor usa tanto um quanto outro combustível, despencou. Em janeiro de 2009, segundo cálculos do Itaú/BRA, um pouco mais de 80% dos carros flex consumiam prioritariamente álcool. Em outubro de 2012, a porcentagem caiu para 27%. Mais gasolina é sinônimo de mais poluiçã;o. E também de prejuízo. Incapaz de suprir a demanda, a Petrobras gastou no ano passado 7,2 bilhões de reais na importaçã;o de derivados do petróleo, gasolina inclusive.
 
A histórica má fama dos usineiros leva muita gente a acreditar que as reclamações de agora sã;o a enésima tentativa de arrancar um dinheiro fácil dos cofres públicos. Nã;o é o caso. Mais do que a sobrevida de alguns produtores, o Brasil está diante dc uma escolha estratégica clara, liderar ou nã;o o mercado global de biocombustíveis, um setor no qual reúne vantagens competitivas reconhecidas: dominamos a tecnologia e temos matérias-primas variadas. Mas, enquanto o País patina, os Estados Unidos ganham terreno. Os norte-americanos já sã;o os principais produtores e exportadores de etanol, embora o álcool de milho seja inferior ao da cana. O segredo: a opçã;o clara de Washington por estimular o uso de fontes renováveis de energia.
 
"Uma mudança na política de preços dos combustíveis de uma forma a permitir as flutuações internacionais já provocaria um enorme impacto. Mas nã;o basta. E preciso estabilidade de regras de longo prazo", afirma Alexandre Figliolino, do Itaú/BBA, respeitado analista do setor. Os problemas climáticos e as incertezas de mercado, aponta, levaram a uma reduçã;o de 30 milhões de hectares na capacidade de moagem das usinas. Uma recuperaçã;o consistente está em curso. Parte das empresas tem investido na recuperaçã;o dos canaviais e a produçã;o, pelos cálculos do setor, deve somar 600 milhões de toneladas em 2014.
 
Tradicional produtor do interior paulista, o Grupo USJ é um dos que investem na renovaçã;o da lavoura e na expansã;o da produçã;o. Uma nova usina em Cachoeira Dourada, Goiás, aumentará a capacidade de colheita em 2,5 milhões de toneladas de cana por ano. O USJ produz atualmente 280 milhões de litros de etanol e 235 mil megawatts de energia elétrica a partir do bagaço. "Houve um aumento de custo muito grande: terra, mã;o de obra, tudo ficou mais caro. O câ;mbio também andou muito instável, o que anulou ganhos de preço no mercado externo. Isso limita a capacidade de crescimento da oferta", explica Narciso Bertholdi, diretor-executivo. "Nossos investimentos buscam minimizar o impacto desses custos, mas sem uma mudança na política de preços dos combustíveis o setor nã;o sairá da zona do desconforto."
 
Após serem movidos pelo entusiasmo de Lula, os usinei ros andam apreensivos com a frieza de Dilma Rousseff. A falta de diálogo entre as empresas privadas e o Palácio do Planalto chegou a tal ponto que nem sequer as boas notícias animam os produtores. Foi o que aconteceu com o anúncio do aumento da mistura do álcool &agrave gasolina de 20% para 25%, uma iniciativa para estimular a produçã;o de etanol e aliviar as importações da Petrobras. A medida, que entra em vigor a partir de maio, foi anunciada por Edison Lobã;o, ministro de Minas e Energia, no fim de 2012, com o intuito de permitir aos usineiros se adaptarem &agraves novas regras. Como a resoluçã;o ainda nã;o foi publicada no Diário Oficial da Uniã;o, algumas empresas temiam um recuo da presidenta, baseadas na versã;o, real ou nã;o, de que os ministros nã;o têm autonomia para tomar decisões. A CartaCapital, o ministério informou: a medida está garantida e deve ser publicada "em breve".
 
A elevaçã;o do porcentual do etanol na gasolina é um sinal de que o governo anda sensibilizado com as demandas dos empresários, após dois anos sem muito a oferecer. Além da resoluçã;o, um programa de incentivos elaborado pelo Ministério do Desenvolvimento espera apenas um aval da Fazenda e da Presidência. () objetivo, explica uma fonte de Brasília, é aplicar um conceito semelhante &agravequele utilizado no novo regime automotivo. Quanto mais investimentos em inovaçã;o e pesquisa no território nacional, maior a isençã;o de impostos.
 
Esse trecho tem um alvo específico, as multinacionais que apostaram na produçã;o de biocombustíveis no Brasil. Muitas companhias estrangeiras têm pesquisado fontes de energia renováveis no País (nã;o só cana, mas palma, mamona e pinhã;o-manso, por exemplo), mas optado por instalar fábricas em outras nações. Há também grandes companhias de pesquisa, entre elas a Bunge, equipadas para desenvolver novas variedades de plantas. A intençã;o seria, portanto, manter esses investimentos em território nacional. Segundo a fonte, o programa se adaptaria &agrave situaçã;o financeira de cada empresa. As exigências seriam menores para os grupos mais endividados e sem acesso a capital.
 
Para Miguel Rossetto, presidente da Petrobras Biocombustível, as medidas em análise no governo provam que o Brasil está comprometido com a agenda da energia renovável. "Na biomassa, nos biocombustíveis, temos um outro pré-sal." Sob o comando de Ros-setto, a empresa alterou sua estratégia. Em vez de começar uma planta do zero, tem preferido associar-se a grupos privados experientes. Em 2010, a Petrobras comprou uma parte da Guarani, grupo de açúcar e álcool criado no interior de Sã;o Paulo nos anos 1960. A estatal mantém outras parcerias no Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, além de unidades próprias de biodiesel na Bahia, no Ceará e em Minas. Rossetto prevê uma expansã;o de 29% na produçã;o de etanol em 2013, atualmente de 1,3 bilhã;o de litros.
 
O programa proposto pelo Ministério do Desenvolvimento pode se tornar o marco regulatório reivindicado pelos empresários. Sua vantagem seria nã;o se ater a pendências pontuais, o preço da gasolina, por exemplo. Em vez disso, o plano garantiria um planejamento de longo prazo capaz de recolocar o Brasil no trilho do avanço tecnológico. A corrida atual no planeta é para ver quem domina primeiro a produçã;o comercial do etanol celulósico, obtido da quebra química da cadeia de polímeros que compõem a estrutura das fibras dos vegetais. Isso significa que, em tese, quase todo tipo de vegetal e suas sobras poderiam virar combustível. O etanol celulósico, ou de segunda geraçã;o, permitiria, por exemplo, acrescentar &agrave produçã;o uma enorme quantidade de palha da cana que hoje sobra nas plantações. Estima-se que a produtividade dos canaviais dobraria com a nova tecnologia e a melhora genética das plantas. Uma primeira usina de testes deve ser instalada no Brasil em 2014 ou 2015, embora seu pleno uso comercial vá levar muito mais tempo.
 
Há ainda a produçã;o energética. Estima-seem 15,3 mil megawatts, equivalente &agrave oferta de três hidrelétricas de Belo Monte, a quantidade de energia elétrica excedente que as atuais usinas de açúcar e álcool poderiam gerar em 2020. Segundo Mendonça, da Odebrecht Agroindustrial, nenhum projeto novo de produçã;o de etanol pode prescindir da geraçã;o de energia a partir do bagaço. Mais uma vez, uma decisã;o do governo teria o poder de mudar completamente o cenário. Apesar do potencial comprovado, o Ministério de Minas e Energia nã;o inclui esse tipo de geraçã;o na matriz energética, muito menos define porcentuais de participaçã;o futura no sistema elétrico integrado. Os leilões de compra sã;o esporádicos e inibem os investimentos na expansã;o da oferta. Enquanto isso, o País se vê obrigado a manter ligadas as poluentes e caras usinas termoelé-tricas, alimentadas a gás e óleo, para evitar os riscos de racionamento.
 
Figliolino, do Itaú/BBA, aponta inúmeras vantagens na ampliaçã;o do consumo do etanol. Ela incentiva a interiorizaçã;o do desenvolvimento, serve para inibir eventuais abusos nos reajustes da gasolina nos postos, pois os usuários de carros flex terã;o sempre uma segunda opçã;o de combustível, reduz o peso das importações sobre as costas da Petrobras, garante o compromisso do Brasil com a reduçã;o de emissões de carbono na atmosfera e, mais importante, permite um uso mais nobre e racional do petróleo. Nada seria pior se o Brasil consumisse um quinhã;o das reservas do pré-sal apenas para garantir o vaivém dos carros.
 
A relaçã;o umbilical entre automóveis e gasolina é um fenômeno que se consolidou ao longo do século XX. Os primeiros carros projetados por Henry Ford usavam álcool no motor. Só após a febre do petróleo nos Estados Unidos e as descobertas das imensas jazidas no Oriente Médio ficou mais barato refinar o óleo e este se tornou dominante. A perspectiva neste século continua, porém, a mesma. Apesar das novas descobertas, as reservas de petróleo estarã;o esgotadas em poucas décadas. O preço do barril permanecerá alto, o que viabiliza a exploraçã;o de outras fontes de energia.
 
Ao mesmo tempo, a junçã;o de forças aleatórias, titâ;nicas e milenares que moldou este pequeno planeta e que alguns chamam de Deus proveu o Brasil de uma infinidade incomparável de alternativas. Há petróleo e cana (e outras matérias-primas), água e terra, sol e vento em quantidades invejáveis. Nosso único desafio é usá-los da forma mais inteligente possível. 
 
Fonte: Revista Carta Capital 
 
Elaborada pela Assessoria de Comunicaçã;o Social &ndash GMF
Coordenaçã;o de Divulgaçã;o em Mídia Digital – CODIG

 

Categories: noticias