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13/09/2019

Fonte: Folha de S.Paulo

Os carros antigos em exposição no pavilhão 4 do Salão do Automóvel de Frankfurt, que abre ao público nesta quarta-feira (12), são o contraponto ao que acontece em todos os outros espaços da mostra. Quase tudo está dominado por carros elétricos e híbridos.

Estandes antes recheados de automóveis a combustão agora estão vazios: não há tantos carros “verdes” disponíveis para ocupá-los.

“O formato das tradicionais feiras e do negócio deve ser repensado e reformatado constantemente, focando cada vez mais na sociedade atual e nos principais questionamentos que ela enfrenta”, diz o comunicado assinado por Bettina Fetzer, responsável pelo marketing da Mercedes-Benz Cars.

Quem passeia pelo evento de Frankfurt, que fica aberto até o dia 22, tem a sensação de que o mundo automotivo já completou a transição da gasolina para a eletrificação. Chega a parecer anacrônico o protesto feito pelo Greenpeace diante do portão principal do evento, acusando as montadoras de não fazerem o suficiente para reduzir as emissões de poluentes e gás carbônico.

Contudo, a “e-mobility” esbarra na realidade do mercado. Segundo Bernhard Mattes, presidente da VDA (associação alemã das montadoras), as fabricantes e seus fornecedores investirão € 40 bilhões em mobilidade elétrica nos próximos três anos. O número de modelos movidos a energia será quintuplicado até 2023.

Isso ocorre mais por força da legislação ambiental do que pelo interesse do público. Embora a venda de veículos considerados limpos esteja crescendo, tais carros representam apenas 2% das vendas atuais no mercado europeu.

As expectativas são ambiciosas, mas se nota tensão nas palavras dos representantes da indústria. Um executivo da Volkswagen afirma que o principal lançamento da marca em Frankfurt, o elétrico ID3, deverá ter 100 mil unidades vendidas em 2020. Para 2025, quando a família de modelos estará completa, espera-se que o número de emplacamentos na Europa chegue a 1 milhão. Se não for assim, a conta não fecha.

Em seu discurso de apresentação do Salão de Frankfurt, Mattes lembrou que a economia global está esfriando, o que afeta o setor automotivo. “As vendas recentes de automóveis de passageiros ficaram aquém das expectativas e algumas empresas tiveram que ajustar suas previsões de ganhos. Dos três maiores mercados [Europa, EUA, China], não há expectativa de crescimento no momento, embora continuem apresentando um nível alto no longo prazo.”

Pelos cálculos da VDA, 81 milhões de automóveis de passeio deverão ser vendidos globalmente em 2019, o que representa uma redução de 4% na comparação com 2018. Entretanto, o presidente da entidade alemã destaca que, em 2009, 55,3 milhões de veículos foram comercializados.

Ou seja: embora haja queda, o cenário global ainda é interessante para a indústria automotiva enquanto negócio. O problema atual está na necessidade de se investir alto sem ter a certeza de que o público irá aderir em massa aos novos produtos, principalmente diante das alternativas de mobilidade que surgem quase que diariamente enquanto as novidades têm preço elevado. Carro elétrico custa caro.

As fabricantes se preocupam também com os pontos e os custos de recarga, algo relacionado ao setor público e a empresas de energia. É a dificuldade de encher as baterias que mais afasta os possíveis consumidores dos automóveis elétricos.

Diante de tantos investimentos cercados de incertezas, fica mais fácil entender a ausência de tantas montadoras relevantes no principal salão do automóvel do mundo.

Por estarem com os investimentos voltados para veículos elétricos e também autônomos, as empresas não dispõem de capital para armar grandes espetáculos em feiras do setor. Tornam-se mais seletivas e priorizam os eventos em que efetivamente têm uma tecnologia ou um produto novos para serem exibidos. Sem isso, deixam vazios seus espaços.

O jornalista viajou a convite da Anfavea

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